{"id":202,"date":"2010-05-10T22:24:12","date_gmt":"2010-05-11T02:24:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sammyacury.com.br\/blog\/?p=202"},"modified":"2010-05-10T22:24:12","modified_gmt":"2010-05-11T02:24:12","slug":"para-todas-maes-atuais-e-futuras","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.sammyacury.com.br\/blog\/para-todas-maes-atuais-e-futuras\/","title":{"rendered":"Para todas m\u00e3es (atuais e futuras)"},"content":{"rendered":"<p>Texto: Lya Luft<\/p>\n<p>Que nossa vida, meus filhos, tecida de encontros e desencontros, como a de todo mundo, tenha por baixo um rio de \u00e1guas generosas, um entendimento acima das palavras e um afeto al\u00e9m dos gestos \u2013 algo que s\u00f3 pode nascer entre n\u00f3s. Que quando eu me aproxime, meu filho, voc\u00ea n\u00e3o se encolha nem um mil\u00edmetro com medo de voltar a ser menino, voc\u00ea que j\u00e1 \u00e9 um homem. Que quando eu a olhe, minha filha, voc\u00ea n\u00e3o se sinta criticada ou avaliada, mas simplesmente adorada, como desde o primeiro instante.<br \/>\nQue, quando se lembrarem de sua inf\u00e2ncia, n\u00e3o recordem os dias dif\u00edceis (voc\u00eas nem sabiam), o trabalho cansativo, a sa\u00fade n\u00e3o t\u00e3o boa, o casamento numa pequena ou grande crise, os nervos \u00e0 flor da pele \u2013 aqueles dias em que, at\u00e9 hoje arrependida, dei um tapa que ainda agora d\u00f3i em mim, ou disse uma palavra injusta. Lembrem-se dos deliciosos momentos em fam\u00edlia, das risadas, das hist\u00f3rias na hora de dormir, do bolo que embatumou, mas que voc\u00eas, pequenos, comeram dizendo que estava maravilhoso. Que pensando em sua adolesc\u00eancia n\u00e3o recordem minhas distra\u00e7\u00f5es, minhas imperfei\u00e7\u00f5es e impropriedades, mas as caminhadas pela praia, o sorvete na esquina, a li\u00e7\u00e3o de casa na mesa de jantar, a sensa\u00e7\u00e3o de aconchego, sentados na sala cada um com sua ocupa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQue quando precisarem de mim, meus filhos, voc\u00eas nunca hesitem em chamar: m\u00e3e! Seja para prender um bot\u00e3o de camisa, ficar com uma crian\u00e7a, segurar a m\u00e3o, tentar fazer baixar a febre, socorrer com qualquer tipo de recurso, ou apenas escutar alguma queixa ou preocupa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 preciso constrangerem-se de ser filhos querendo m\u00e3e, s\u00f3 porque voc\u00eas tamb\u00e9m j\u00e1 est\u00e3o grisalhos, ou com filhos crescidos, com suas alegrias e dores, como eu tenho e tive as minhas. Que, independendo da hora e do lugar, a gente se sinta bem pensando no outro. Que essa consci\u00eancia fa\u00e7a expandir-se a vida e o cora\u00e7\u00e3o, na certeza de que aquela pessoa, seja onde for, vai saber entender; o que n\u00e3o entender vai absorver; e o que n\u00e3o absorver vai enfeitar e tornar bom.<\/p>\n<p>Que quando nos afastarmos isso seja sem dilaceramento, ainda que com passageira tristeza, porque todos devem seguir seu caminho, mesmo que isso signifique alguma dist\u00e2ncia: e que todo reencontro seja de grandes abra\u00e7os e boas risadas. Esse \u00e9 um tipo de amor que independe de presen\u00e7a e tempo. Que quando estivermos juntos voc\u00eas encarem com algum bom humor e muita naturalidade se houver ra\u00edzes grisalhas no meu cabelo, se eu come\u00e7ar a repetir hist\u00f3rias, e se tantas vezes s\u00f3 de olhar para voc\u00eas meus olhos se encherem de l\u00e1grimas: ser\u00e3o apenas de alegria porque voc\u00eas est\u00e3o a\u00ed. Que quando pare\u00e7o mais cansada voc\u00eas n\u00e3o tenham receio de que eu precise de mais ajuda do que voc\u00eas podem me dar: provavelmente n\u00e3o precisarei de mais apoio do que do seu carinho, da sua aten\u00e7\u00e3o natural e jamais for\u00e7ada. E, se precisar de mais que isso, n\u00e3o se culpem se por vezes for dif\u00edcil, ou trabalhoso ou tedioso, se lhes causar susto ou dor: as coisas s\u00e3o assim. Que, se um dia eu come\u00e7ar a me confundir, esse eventual efeito de um longo tempo de vida n\u00e3o os assuste: tentem entrar no meu novo mundo, sem drama nem culpa, mesmo quando se impacientarem. Toda a transforma\u00e7\u00e3o do nascimento \u00e0 morte \u00e9 um dom da natureza, e uma forma de crescimento.<\/p>\n<p>Que em qualquer momento, meus filhos, sendo eu qualquer m\u00e3e, de qualquer ra\u00e7a, credo, idade ou instru\u00e7\u00e3o, voc\u00eas possam perceber em mim, ainda que numa cintila\u00e7\u00e3o breve, a inapag\u00e1vel sensa\u00e7\u00e3o de quando voc\u00eas foram colocados pela primeira vez nos meus bra\u00e7os: misto de susto, plenitude e ternura, maior e mais importante do que todas as gl\u00f3rias da arte e da ci\u00eancia, mais s\u00e9rio do que as tentativas dos fil\u00f3sofos de explicar os enigmas da exist\u00eancia. A sensa\u00e7\u00e3o que vinha do seu cheiro, da sua pele, de seu rostinho, e da consci\u00eancia de que ali havia, a partir de mim e desse amor, uma nova pessoa, com seu destino e sua vida, nesta bela e complicada terra. E assim sendo, meus filhos, voc\u00eas ter\u00e3o sempre me dado muito mais do que esperei ou mereci ou imaginei ter.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Lya Luft Que nossa vida, meus filhos, tecida de encontros e desencontros, como a de todo mundo, tenha por baixo um rio de \u00e1guas generosas, um entendimento acima das palavras e um afeto al\u00e9m dos gestos \u2013 algo que s\u00f3 pode nascer entre n\u00f3s. Que quando eu me aproxime, meu filho, voc\u00ea n\u00e3o se encolha nem um mil\u00edmetro com medo de voltar a ser menino, voc\u00ea que j\u00e1 \u00e9 um homem. Que quando eu a olhe, minha filha, voc\u00ea n\u00e3o se sinta criticada ou avaliada, mas simplesmente adorada, como desde o primeiro instante. Que, quando se lembrarem de sua inf\u00e2ncia, n\u00e3o recordem os dias dif\u00edceis (voc\u00eas nem sabiam), o trabalho cansativo, a sa\u00fade n\u00e3o t\u00e3o boa, o casamento numa pequena ou grande crise, os nervos \u00e0 flor da pele \u2013 aqueles dias em que, at\u00e9 hoje arrependida, dei um tapa que ainda agora d\u00f3i em mim, ou disse uma palavra injusta. Lembrem-se dos deliciosos momentos em fam\u00edlia, das risadas, das hist\u00f3rias na hora de dormir, do bolo que embatumou, mas que voc\u00eas, pequenos, comeram dizendo que estava maravilhoso. Que pensando em sua adolesc\u00eancia n\u00e3o recordem minhas distra\u00e7\u00f5es, minhas imperfei\u00e7\u00f5es e impropriedades, mas as caminhadas pela praia, o sorvete na esquina, a li\u00e7\u00e3o de casa na mesa de jantar, a sensa\u00e7\u00e3o de aconchego, sentados na sala cada um com sua ocupa\u00e7\u00e3o. Que quando precisarem de mim, meus filhos, voc\u00eas nunca hesitem em chamar: m\u00e3e! Seja para prender um bot\u00e3o de camisa, ficar com uma crian\u00e7a, segurar a m\u00e3o, tentar fazer baixar a febre, socorrer com qualquer tipo de recurso, ou apenas escutar alguma queixa ou preocupa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 preciso constrangerem-se de ser filhos querendo m\u00e3e, s\u00f3 porque voc\u00eas tamb\u00e9m j\u00e1 est\u00e3o grisalhos, ou com filhos crescidos, com suas alegrias e dores, como eu tenho e tive as minhas. Que, independendo da hora e do lugar, a gente se sinta bem pensando no outro. Que essa consci\u00eancia fa\u00e7a expandir-se a vida e o cora\u00e7\u00e3o, na certeza de que aquela pessoa, seja onde for, vai saber entender; o que n\u00e3o entender vai absorver; e o que n\u00e3o absorver vai enfeitar e tornar bom. Que quando nos afastarmos isso seja sem dilaceramento, ainda que com passageira tristeza, porque todos devem seguir seu caminho, mesmo que isso signifique alguma dist\u00e2ncia: e que todo reencontro seja de grandes abra\u00e7os e boas risadas. Esse \u00e9 um tipo de amor que independe de presen\u00e7a e tempo. Que quando estivermos juntos voc\u00eas encarem com algum bom humor e muita naturalidade se houver ra\u00edzes grisalhas no meu cabelo, se eu come\u00e7ar a repetir hist\u00f3rias, e se tantas vezes s\u00f3 de olhar para voc\u00eas meus olhos se encherem de l\u00e1grimas: ser\u00e3o apenas de alegria porque voc\u00eas est\u00e3o a\u00ed. Que quando pare\u00e7o mais cansada voc\u00eas n\u00e3o tenham receio de que eu precise de mais ajuda do que voc\u00eas podem me dar: provavelmente n\u00e3o precisarei de mais apoio do que do seu carinho, da sua aten\u00e7\u00e3o natural e jamais for\u00e7ada. E, se precisar de mais que isso, n\u00e3o se culpem se por vezes for dif\u00edcil, ou trabalhoso ou tedioso, se lhes causar susto ou dor: as coisas s\u00e3o assim. Que, se um dia eu come\u00e7ar a me confundir, esse eventual efeito de um longo tempo de vida n\u00e3o os assuste: tentem entrar no meu novo mundo, sem drama nem culpa, mesmo quando se impacientarem. Toda a transforma\u00e7\u00e3o do nascimento \u00e0 morte \u00e9 um dom da natureza, e uma forma de crescimento. Que em qualquer momento, meus filhos, sendo eu qualquer m\u00e3e, de qualquer ra\u00e7a, credo, idade ou instru\u00e7\u00e3o, voc\u00eas possam perceber em mim, ainda que numa cintila\u00e7\u00e3o breve, a inapag\u00e1vel sensa\u00e7\u00e3o de quando voc\u00eas foram colocados pela primeira vez nos meus bra\u00e7os: misto de susto, plenitude e ternura, maior e mais importante do que todas as gl\u00f3rias da arte e da ci\u00eancia, mais s\u00e9rio do que as tentativas dos fil\u00f3sofos de explicar os enigmas da exist\u00eancia. A sensa\u00e7\u00e3o que vinha do seu cheiro, da sua pele, de seu rostinho, e da consci\u00eancia de que ali havia, a partir de mim e desse amor, uma nova pessoa, com seu destino e sua vida, nesta bela e complicada terra. 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